quarta-feira, 6 de maio de 2009

Clássica da Primavera


Cresci a ver ciclismo! Enquanto colegas e amigos da minha idade se deliciavam a ver o "Agora Escolha" na RTP2 apresentado pela Vera Jardim e a jogar à bola na rua nas férias da Páscoa e Verão, eu seguia atentamente a TVE2 e as transmissões em directo da Vuelta (No meu tempo era em Abril)do Giro e do Tour. Relembro com enorme saudosismo os ataques de Pedro Delgado, Marino Lejarreta, Eduardo Chozas, entre outros, que de tantos que são, é impossível enumerar. Nessa altura em Abril, enquanto meus amigos saíam ao Domingo à tarde para ir ao café eu ficava em frente ao televisor sintonizado na segunda da espanhola a ver o Tour de Flandres, o Paris-Roubaix e a Fleche Valone. Fantasiava um dia em pedalar naquele pavé solto e chegar ao velódromo de Roubaix em primeiro lugar... inocência da juventude, claro está!Hoje sinto-me feliz com estas recordações... sinto-me vivo!Domingo, apesar do meu fraco estado de forma, lá estarei para pedalar nessas dificuldades e, porventura, atacar numa subida de paralelo dura... nem que seja para depois "deitar os bofes de fora" e chegar a casa de gatas...

domingo, 26 de abril de 2009

25 de Abril de 1974

Passados 35 anos do 25 de Abril de 1974 deixo aqui um relato na primeira pessoa


“ [Naquela época] começávamos a trabalhar ainda mal sabíamos andar. Desde garoto, eu e os meus irmãos, ajudávamos o meu pai no tear e enchíamos canelas. Não frequentei a escola. Aprendi a ler e a escrever já em adulto (…). Fui operário têxtil e, já reformado, dediquei-me ao artesanato de madeiras para ocupar os dias. Pela revolta e descontentamento para com o regime salazarista, a ditadura, surge a aproximação ao Partido Comunista Português. Aos 13 anos já era militante do PCP (…).
Na noite de 9 para 10 de Novembro de 1940, de sábado para domingo, eu e mais 4 camaradas jovens operários (António Valério, Alberto Felício, João Carrola e José Cristóvão), na sequência de uma acção clandestina de distribuição de propaganda do partido e de pinturas nas ruas e nas paredes com palavras de ordem, com o objectivo de informar e alertar o povo que permanecia, na maioria, analfabeto, para derrubar o regime, fomos preso pela PIDE, depois de uma denúncia (…)
Fui preso em casa e levado para aquele que era o quartel general da PIDE no Teixoso. Muitos dos presos eram tecelões, por se queixarem dos patrões. Aí, malharam logo em nós! Do Teixoso, fomos embalados em carros para a esquadra da Covilhã, metidos em calaboiços e começaram as torturas …batiam-nos com a cabeça em lâmpadas, éramos colocados no corredor em posição de estátua até cair… uns em cima dos outros. Depois de 8 dias, fomos despachados, por comboio, para Lisboa, escoltados pela polícia como se fossemos os maiores bandidos desta vida! Estivemos lá até 31 de Janeiro de 1941, fechados em pequenas celas sem quaisquer condições. Fomos julgados em tribunal como comunistas. Só na véspera soubemos a nossa nota de culpa. Não tínhamos ninguém que nos defendesse, a não ser nós próprios. Fomos condenados a 9 meses de prisão correccional com pena suspensa por 2 anos (…).
A pequena grande revolução do 25 de Abril foi o melhor que aconteceu ao país depois de tantas barbáries inventadas e sofridas na pele; o abanão mais positivo; uma revolução pacífica; um trunfo espiritual para o qual todos os Portugueses contribuíram, sacudindo a ditadura do país.


Valeu bem a pena! Não tenho pena do que sofri. Foi um ensinamento. Orgulho-me do trabalho que fiz em prol do povo e da paz. Não podíamos viver acorrentados…somos livres!
[Aos jovens] Que nunca, nunca se esqueça que Portugal deu um exemplo nobre ao mundo. A Revolução de Abril foi e é a jóia mais poderosa dos Portugueses; Que nunca se desvirtue a raiz da revolução. Que nunca se esqueça o 25 de Abril.A política não é um crime… é o meio que os cidadãos têm, independentemente dos partidos a que pertençam, para fazer progredir e desenvolver um povo”.



Francisco Ferreira Marques

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Há coisas que são comparáveis...



Já andava o pessoal todo "lampeiro" equipado à Verão... quando o típico clima de Abril ataca, qual ciclista possante, no Bosque de Arenberg, deferindo o golpe inicial da contenda que o levará ao Velódromo de Roubaix, erguendo os braços e limpando a cara de pó, lama e barro... lavando suas feridas das caídas anteriores no pavé duro do "Inferno do Norte"... tal como O Grande "Ciclista"... O Único... O Primeiro... padeceu por nós e hoje se recorda a sua Morte.Por vezes, nem que seja apenas nestes dias, vale a pena pensar nisto e dar graças por todas as bençãos que temos recebido.

Vuelta a Castilla y Leon - 2009 - Etapa 4 - Laguna de Los Peces

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Homenagem a Francisco Ferreira Marques




Neste dia em que se comemora mais um aniversário da implantação da Republica em Portugal, a comissão concelhia do Partido Comunista Português, considerou ser seu dever prestar homenagem ao homem, ao operário, ao artista, ao escritor, ao actor, ao jornalista, ao poeta, ao resistente, ao militante que dedicou grande parte da sua vida em benefício da construção de um país melhor e de uma sociedade mais justa e fraterna.

Neste almoço convívio estiveram presentes cerca de 140 pessoas que não quiseram deixar de demonstrar ao Xico Ferreira a sua amizade, o seu companheirismo e o seu amor. Apesar da iniciativa de tal homenagem pertencer ao Partido Comunista Português (do qual o Xico Ferreira é militante de longa data), desde logo a mesma foi acolhida com enorme satisfação e entusiasmo pela sua família e amigos (de todos os quadrantes políticos), deixando bem patente nesta singela homenagem que o que importa e verdadeiramente conta são as pessoas no âmago do seu ser.

Neste pequeno post é impossível elaborar um resumo condigno do que foi a vida do Xico Ferreira, tais foram as actividades desenvolvidas por ele nos diversos quadrantes da sociedade Teixosense, assim, fica apenas aqui patente um pouco de algumas histórias que com ele se passaram…

Dados Pessoais
Data de nascimento: 25-02-1923
Celebrou casamento com Serafina Matos Felício em 30-09-1946 do qual teve 10 filhos
Netos: 11 (Uma verdadeira equipa de futebol – o seu desporto favorito, sendo Sportinguista de alma e coração)

No trabalho
Desde cedo iniciou a sua actividade no mundo do trabalho. Aos 7 anos de idade já contribuía com a tarefa de “encher canelas” para seu pai, então tecelão de tear de pau.
Com 10 anos de idade, inicia a sua caminhada diária Teixoso – Covilhã e vice-versa inserindo-se assim no mundo do trabalho da indústria laneira.

Com os operários mais antigos e em condições de trabalho extremamente adversas, onde os salários miseráveis imperavam em plena época de preparativos para aquilo que seria a 2ª Guerra Mundial, vai ganhando consciência de classe que lhe permitiu ao longo da vida uma intervenção em áreas tão diversas, com a relevância que se conhece.

Com apenas 17 anos, o Xico Ferreira junta a sua voz e a sua acção aos operários da então firma Manuel Fazenda e participa numa jornada de propaganda (naturalmente clandestina), na noite de 9 para 10 de Novembro de 1940, na denúncia da politica de opressão e das condições de vida degradantes que o regime do estado novo impunha aos portugueses.
Desta acção resulta a sua prisão - 5 dias nos calabouços da PSP da Covilhã, e depois Aljube e Caxias onde o Xico Ferreira e muitos outros operários sofreram na pele as mais variadas formas de tortura, acusações infames de atentado contra o Estado, vexames de toda a ordem e humilhação constante.
Em Março de 1941, depois de 5 meses de prisão, é levado a tribunal na cidade de Lisboa. Numa farsa sem precedentes é condenado a 9 meses de prisão correccional com pena suspensa durante 2 anos.

Fortemente marcado no seu ser com toda estas atitudes do regime esteve em vias de aderir à “clandestinidade”. Não o fez fisicamente por razões familiares, mas quem o conhece bem não pode deixar de notar na sua voz, de cada vez que se fala neste assunto, a sua revolta contra os “esbirros fascistas” do antigo regime.

De regresso à sua actividade laboral o Xico Ferreira manteve sempre uma postura de vanguarda, na defesa dos direitos dos trabalhadores, sendo reconhecido nas várias empresas onde trabalhou, como um homem honesto, competente e com elevado sentido de responsabilidade em todas as suas vertentes.

No Desporto
Desde muito novo que o Xico Ferreira praticava Futebol. Em 1951 foi um dos fundadores do Grupo Desportivo Teixosense, sendo actualmente o seu sócio nº 1.

A sua participação na vida desta colectividade é a todos os títulos notável:
- Dirigente desportivo durante vários anos, como Secretário-Geral
- Praticante como futebolista sénior.
- Treinador de futebol sénior e das camadas jovens
- Treinador de atletismo
- Responsável pela secção cultural
- Actor e encenador do Grupo de Teatro
- Fundador e ensaiador dos Ranchos Folclóricos seniores e infantis.

Na Cultura
Neste domínio, a sua colaboração e intervenção, baseada na sua experiência, valorizaram de forma muito significativa, diversas organizações e colectividades dedicadas a esta causa.

A Juventude Operária Católica (JOC), a Conferência de S. Vicente de Paulo, a Comissão de Pais e Encarregados de Educação, as Comissões Organizadoras de Cortejos para a Cantina Escolar e o Centro Cultural do Teixoso (CECUT), entre outros, foram associações e organizações onde o Xico Ferreira trabalhou desinteressadamente nas múltiplas manifestações culturais e recreativas, que todas estas entidades desenvolveram ao longo dos anos.

Na memória colectiva de muitos Teixosenses perpetuam as récitas teatrais com que o Xico Ferreira deliciava o público com as suas actuações nas antigas instalações da JOC, anexas ao Santo Cristo.

Da mesma forma a organização e ensaio dos famosos “Quadros Vivos”, retratando excertos da vida de Cristo foram uma das muitas manifestações culturais legadas pelo Xico Ferreira.

Na Arte
Outra actividade muito criativa foram os trabalhos de artesanato de aplicações em madeira nas mais diversas formas, á qual se dedicou após a reforma, levando a que grande parte dos trabalhos fosse comercializada. De salientar a construção exemplar de uma miniatura de um tear de pau dos tempos da sua infância.

Nas Letras
Não detendo qualquer formação académica, para além de uma instrução primária muito primitiva (pagou aulas particulares para aprender a ler e escrever), obtendo posteriormente a 4ª classe no escalão dos adultos, surpreende a sua capacidade de prosa e poeta.

Autor de diversas letras de músicas para actuação de Ranchos Folclóricos e Grupos de Cantares, bem como de poemas diversos dos quais se destaca o poema à Nossa Senhora dos Caminhos ainda hoje patente no monumento à entrada da Vila do Teixoso.

As suas aptidões literárias levaram a que alguns jornais da imprensa regional procurassem os seus serviços, já que a sua comunicação séria e ponderada, reflectia com rigor a verdade dos acontecimentos da nossa região.

A correspondência e os artigos de opinião publicados durante vários anos no Jornal do Fundão, no Noticias da Covilhã, na Reconquista, no Teixoso Unido e no Adro Cultural, foram exemplos e testemunhos bem reais na nossa sociedade contemporânea, que muitos tivemos o privilégio de ler.

Vida Política
Com o 25 de Abril abre-se um novo ciclo na vida dos portugueses. O Xico Ferreira diz presente a mais uma chamada para as tarefas que daí se preconizavam.

Integrou a primeira Junta de Freguesia do Teixoso, participando activamente na reconstrução e reorganização de todos os seus serviços.

Posteriormente e devido às suas capacidades de líder, foi proposto pelos Teixosenses para desempenhar funções na Regedoria do Teixoso, tendo de imediato sido distinguido com perfil adequado, pela Câmara Municipal da Covilhã, que prontamente o nomeou como Regedor Oficial da Vila do Teixoso. Tarefa essa que desempenhou com total isenção, lealdade e respeito para com todos os Teixosenses, com o mais elevado sentido de responsabilidade.

Participou em várias eleições autárquicas em representação do “seu” Partido Comunista, foi eleito, sucessivamente, para a Assembleia de Freguesia, contribuindo, assim, decisivamente para a consolidação do poder autárquico daquela que é e sempre foi a sua freguesia.

As suas intervenções na Assembleia de Freguesia pactuaram sempre com propostas apresentadas, visando de forma bem explícita, o desenvolvimento e o bem-estar da população Teixosense.

Este relato, é apenas uma pequena síntese daquilo que tem sido a sua obra.

Numa sociedade onde cada ser humano se interioriza, a cada dia que passa, mais com o seu próprio ego, salienta-se este HOMEM que munido de uma verdadeira atitude altruísta e de serviço para com o seu semelhante se destacou pela grandeza do seu carácter.

Sendo que “A GRANDEZA NÃO ESTÁ EM RECEBER HONRAS, MAS SIM MERECÊ-LAS”, esta, pequena em comparação à sua pessoa, homenagem hoje preconizada, permite reafirmar que o contributo da sua acção crítica e activa na sociedade portuguesa, o seu trabalho, as suas realizações e contribuições, reflexos da sua sabedoria e experiência, constituem a inspiração que sempre norteará a acção e a luta por uma sociedade mais equilibrada, mais justa e mais fraterna.

Como dimensionar um HOMEM que tão bem soube conduzir os seus actos, formar família, cativar amigos e dar tantos e bons exemplos?

Talvez a melhor forma seja a mais simples e singela: Bem-Haja Avô!

Obrigado por me ensinares a respirar mais alto e mais além!